segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Desfazer. Esvaziar.

Como era antes de termos computadores, telemóveis, televisões?

Quando me colo às distracções que todas estas tecnologias nos trazem, vejo-me num apego desmedido por conteúdo atrás de conteúdo, atrás de desejos, atrás de planos, atrás de tudo o que me faz sair de mim, do silêncio, do desconforto que, por vezes é, estar sossegada, sem nenhuma distracção. Imagino se, algum dia, ficarmos por algum ou muito tempo sem acesso a estas tecnologias que, para muitos e grande parte da população mundial, já é extensão deles em todos os momentos e mais alguns, seja sozinhos seja acompanhados e vejo um caos imenso de muita loucura, ansiedade e e desespero. É algo que não me agrada e, por isso, num momento que sinto de me afastar das tecnologias, inclusivé escrever no blog, depois de ter apagado redes sociais, penso em fazer um detox de conteúdos mentais, mesmo até de livros que não deixa de ser distracção. Questiono-me se sou capaz de me reinventar a tal ponto, mesmo com caderno para escrever, desenhar, viola para tocar... e a música do spotify? A meditação matinal e diária com guiança? Por isso me vejo a ir para um local em que não seja, de todo, necessário, pegar no telemóvel, seja para viajar, seja para o que for e desligá-lo, deixando-o no carro e nem pegar nele. Que local poderá ser esse, aqui em Portugal, na Natureza, em paz, onde haja tranquilidade, seja possível contagiar-me pelos sons da Mãe Terra e fundir-me nela, com a força interior de nem pegar ou sentir necessidade de algo exterior para me distrair de mim mesma sem que seja obrigatório meter-me num retiro em que me façam deixar o telemóvel à porta? Sou mais do que capaz disso, por mim mesma e pela sanidade e paz mental. Afastar-me de todos os barulhos que tenho permitido que me contaminassem, confundissem, baralhassem e sim, o Gerês é um dos destinos que me chamam, mais uma vez, desta vez sem fazer vídeos para enviar a quem quer que seja. Pergunto-me se, para entrar no ritmo, deverei fazer algum tipo de preparação como um retiro de 3 dias no templo e experienciar largar o telemóvel no carro e só pegar nele no último dia do retiro. Será benéfico para mim ouvir preces e mais palavras que, mesmo trazendo paz através dos canticos e preces, trazem uma espécie de condicionamento àquela forma de estar, com uma linguagem que, muitas vezes, faz sentido mas requer ficar fiel/leal até encaixar? O coração pede-me o simples, o original, que chega de religiões, independentemente de qual fôr e mesmo sendo uma que não impõe... sinto que pode incomodar e mexer mais do que apaziguar e acalmar. Escuto-me e sinto de pesquisar casas no Gerês, encontro a ideal. Viajar, levar o suficiente, viola, caderno, pinturas e sossegar a mente na tranquilidade do rio e da Natureza. Caso seja momento e o sinta, mais perto da data, falar com a Sara e combinar um dia de plantas da floresta para dar um boost na conexão interior. Tudo, como sou guiada a pôr em prática e presentear-me com algo que me enche a alma, como uma comemoração do aniversário. 

Tenho uma grande responsabilidade comigo mesma, praticar a paz de diversas formas, e afastar-me do que não me faz bem e alimenta o stress, a preocupação, o envelhecimento, a confusão mental. Ainda agora, mais uma vez, tive a percepção de que, quando estou demasiado tempo de volta do telemóvel, a imagem que é reflectida de mim é de muitas rugas, preocupação, seriedade, numa espécie de foco numa energia que não me faz bem e me tira do momento presente. 

Quão fácil é treinar a mente para sair do agora, bastando seguir as ideias, os planos, as memórias que a mente vai trazendo do passado ou do futuro em frenesim pela mente, acrescentando ainda mais conteúdos, ideias, crenças que passam nas redes sociais, sites a que vou acedendo guiada pela mente com planos de viajar, planear, calcular e ter tudo controlado para que nada saia fora do calculado. 

É incrível o quão rápida é a nossa mente  e quanto mais a estimularmos, mais rápida será. E mediante o que lhe dermos de combustível, será a partir daí que ela produzirá mais e mais. E o quão rápido nos tornamos reféns dela? Nunca me tinha dado conta da capacidade que existia em mim de fazer várias coisas ao mesmo tempo e despachar várias coisas em pouco tempo, aprendizagem que desenvolvi no trabalho ao estimular de tal forma a mente em atender, gerir dinheiro, receber, calcular, mexer em máquinas, contar, imprimir, menús complexos, teclas e mais teclas... a ponto de me levar a nem dar conta do cansaço a que me estava a levar porque, afinal de contas, quanto melhor profissional fosse e melhor desempenhasse as tarefas, melhor profissional me tornava (pensava eu), mais gostavam de mim, especialmente família (pai) para que tivessem orgulho em mim. Mas o que mais gostava era de conversar com os clientes, sem me sentir pressionada a vender ou a impingir o que quer que fosse, especialmente algo em que não acreditava que iria acrescentar valor ao cliente, enquanto ser humano. Talvez tenha criado alergia a tudo o que se relacionasse com dinheiro desde aquela minha experiência, da forma como era vivido o dia a dia ali, associando dinheiro, produtos financeiros, bancos a desumanizar seres humanos e torná-los máquinas, rápidas, aceleradíssimos seres de produção e venda de produtos, eficazes e eficientes, sem sequer se darem conta do lugar para onde se estavam a dirigir, guiados por um sistema controlador. Quão importante foram aqueles atendimentos que fiz a clientes que mental e emocionalmente não estavam de todo equilibrados, especialmente colegas que trabalharam na mesma empresa e mostravam bloqueios mentais, como que uma paralisia cerebral de tal forma foram espremidos, tal como eu me senti até ter a coragem de sair de um lugar que achei que nunca seria capaz de abandonar. Honestamente e sempre que me recordo, foi uma vitória imensa sair de lá, com todas aquelas sensações de nunca mais conseguir sair daquela prisão e nem ver nenhuma luz ao fundo do túnel. Só quem passa por algum trabalho, serviço daquele género, tem a experiência do que realmente não quer mesmo para si e desde então, mesmo depois de muitos processos delicados emocionais, mentais em processo de baixa psicológica, consultas de psiquiatria e psicologia, ser receitada com carradas de comprimdos e não tomar nenhum, percebi que o que precisava era afastar-me de tudo e de todos, especialmente dos ambientes densos fosse em casa, fosse em família. Próxima de fazer 35 anos, um processo parecido ao que passo hoje com muita desconstrução, com muito desfazer de crenças, estudos, conhecimentos adquiridos até hoje e sem saber ainda muito bem para onde me dirijo e quem me tornarei, entendo que este é, realmente um ano que pede para ir bem devagar, para além de toda a transformação planetária, com maior prática de meditação, despejar conteúdo em palavras, escrita, pinturas, desenhos, em vez de acumular e acumular como tenho feito até agora, em busca fora sei lá do quê, quando o que procuro, está mesmo dentro e esse é o desafio, perante todas as distracções que se me apresentam.

Talvez me esteja a ser pedido para esvaziar toda a minha experiência em formato de livros, para que, de alguma forma, consiga vomitar tanta emoção e sentimento que talvez ainda aqui ande estagnado pronto a sair como o champagne dentro de uma garrafa agitada 50 vezes, a ponto de explodir assim que se liberta da rolha, em dia de celebração. Crónicas de um retorno a casa. Em ano 9, tudo emerge à superfície sem que eu precise de fazer qualquer força para que surja, quando já tanta coisa foi desenterrada do subconsciente e, apenas precisa de desaguar de alguma forma criativa. Enquanto leio o livro da Kéuren que muito me tem inspirado, ainda que muito sem explicação e lógica, algo em mim vai sendo conectado como que pequenas pecinhas dentro de um relógio. E a paz a avizinhar-se em pézinhos de lã sem que precise de forçar absolutamente nada, permitindo-me apenas estar no aqui e agora sem nenhum livro do Eckart Tolle que muito respeito, ou de budismo.

Desligar-me do barulho, das distracções, das confusões, dos ruídos, das vozes de fora é inscrivelmente curador e regenerador. A busca incessante de curas, autoconhecimento, livros, novos conceitos, religiões, muitas vezes consegue ser tão prejudicial para a nossa essência que só pede para ser ouvida.

Já há uns meses, surgiu a ideia de ir uns meses para os Açores para colocar em prática, num lugar de Natureza onde me sinto em casa e em paz, e acabei por não o fazer. Hoje, está a chegar-me de novo esse pedido de me desconectar do barulho por uns tempos, penso na Sukhee, penso para onde vou, penso de que forma poderei por em prática esta vontade da minha alma para vomitar duma vez partes da minha história (que nem é minha, é das várias personagens/identidades que fui até agora). Sendo que, cada vez mais acredito que sou a criadora da minha própria realidade que se reflecte lá fora, também poderei, neste momento, acedendo ao coração e sentindo estar já onde preciso de estar para que me sinta feliz e em comunhão com o ser que Eu Sou.

Talvez me tenha andado a enganar até aqui, não sabendo por onde ir, o que ser, que profissão ter, querendo ser o que está na moda, o que a maioria faz ou coloca em prática, achando ser esse o meu caminho de sucesso, prosperidade, abundância e liberdade financeira. Quão enganada tenho andado este tempo todo querendo ir atrás de massas, afastando-me do que realmente Sou e do que realmente me faz feliz e me conecta com a minha verdadeira essência? Já por várias vezes, sei profundamente, que visitei esse lugar, dentro de mim, ao cantar, tocar e expressar-me com amor, sendo interrompida, por vezes, por pensamentos de que haveria de fazer dinheiro com isso. Quanta distorção carrego dentro de mim, em forma de crenças, pensamentos, passadas pela família (também eles presos ao sistema), colégio, religião, amigos, colegas, trabalho, notícias que via/ouvia, enquanto, sem dar conta, ia sendo nutrido o medo, a prisão mental ao sistema criado para que não nos relembremos de quem realmente somos.

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