Durante muito tempo temi voltar-me a abrir para ele, para este coração lindo que bate por mim e graças a Ele sinto-me viva. Durante muito tempo a pressa, a aceleração, o acumular de informações e distracções foi a forma de fugir de uma paz que julguei ser inexistente por não a ter conhecido em criança. Sim, sentia paz, quando, ao brincar sozinha criava através da minha imaginação e criatividade os cenários entre os bonecos, e preferia viver ali, com eles do que encarar o que existia fora de mim.
Reconhecendo hoje que sim, escolhi a família que tive, que tenho, para que me apresentassem o que não era amor puro e genuíno para, por mim mesma, através das minhas experiências, chegar à verdade, passinho a passinho e ir aprendendo a agradecer todo um caminho, toda uma jornada que me trouxe muita confusão, também muitas alegrias, muita agitação mental, muitos tornados emocionais. E hoje, mais consciente de qual o caminho que escolho para mim, mesmo que isso me afaste de quem eu amo e me torne um ser meio anti-social, aprendi a chegar a um lugar mais tranquilo, de maior aceitação, de transformação, de vontade de ser muito grata pelo quanto já vivi, pelo que experienciei e pela coragem que tenho tido em lançar em aventuras bem loucas sem ter a menor noção do que me esperava. Hoje, tomo as minhas decisões com maior sensatez, sem loucuras ou desesperos, mesmo com recursos para as experiências.
Sempre houve muita impulsividade em levar-me aos desafios, depois de demasiado tempo de estagnação e, por deixar chegar a essa estagnação, as decisões acabavam por não ser muito sensatas nem bem alinhadas com o que realmente seria importante para o meu Ser. Então acabavam por ser decisões tomadas em impulsividade de "tenho de ir embora apanhar ar, não sei para onde mas preciso de ir e para longe!". E, por essa experiência tenho percebido que o que tem ocorrido tem sido viver muito nos extremos de muita introspecção e necessidade posterior de muita extroversão e vontade de conhecer o mundo, conhecer algo diferente e sair de tanto bicho mental e de tanta sombra vista, olhada, remexida (muitas vezes demasiado), ou seja, um autoconhecimento levado demasiado a sério sem aproveitar a Vida e vivê-la sem medos de a viver sendo eu mesma. Então, viver muito envolvida numa dualidade muito profunda em formato guerreira, filósofa e, acabando a tornar-me refém da mente que ia ganhando forças, à medida que ia coleccionando conhecimento sem colocar em prática ou sequer partilhá-lo com alguém.
Muitas vezes na garganta, a sensação que tenho é de panela de pressão prestes a explodir assim que se lhe abre a tampa! Ou sabem aquela garrafa de champagne agitada e o champagne louco para sair dali para fora de tão remexido que foi até lhe saltar a tampa?! É exactamente assim que me sinto muitas vezes. Querer trazer ao mundo quem sou, o que sou, o caminho que construí, o que aprendi e evoluí a partir de experiências e vou experienciando pela escrita, pela "audioterapia", indo aliviando a pressão que ainda sinto dentro de mim por existir aqui algo a deter-me, seja vergonha, algum medo de exposição, talvez o medo de não ter amparo caso algo dê para o torto. E, se calhar, nada dará para o torto porque são tudo ilusões de crenças de pessimismo ao querer ir para o novo.
É precisar de me organizar mentalmente e emocionalmente depois de tantas aventuras, de ouvir tantas vozes fora e alinhar-me com a voz que vem de dentro e me guia, me orienta na direcção da minha verdade, pondo em prática não o que é fácil mas sim o que é certo. Decisões sensatas são tomadas em paz quando me encontro calma, tranquila e sem preocupações nenhumas em relação a nada nem a ninguém. É incrível como tudo vai mudando dentro de mim quando me afasto de grande parte do que habitualmente me fazia companhia mas, ao mesmo tempo, me afastava de mim mesma e da minha verdade, acumulando ruídos e mais ruídos, abafando a minha voz interior, a minha verdade e trazendo de novo insegurança no que tenho a partilhar por ser, muitas vezes, bem diferenciado do que vou ouvindo de pessoas que vivem reféns do seu ego, de acumulação de identidades e mais identidades que só alimentam os desejos do ego.
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