Do que gostava eu em criança?
Muitas das coisas, influenciadas por pais e irmãos mas lembro-me de adorar livros de banda desenhada, da Mónica, do Calvin&Hobbes que me faziam rir e ao mesmo tempo reflectir, dos livros do Snoopy com factos do mundo, livros de animais, de coisas misteriosas... gostava do skipper que me fazia saltar e soltar a energia acumulada, adorava ir para o telhado de noite, para me afastar da confusão de casa e conseguir ter uma outra perspectiva, mais de cima, estando mais perto das árvores, dos pássaros, das estrelas. Apesar de gostar de música, aquela obrigação de tocar piano para os outros ou para espectáculos de final de ano mexia comigo e aquele momento em que senti vergonha de me ter enganado e não ser capaz de tocar à frente de tanta gente marcou-me, com o qual me debato hoje para falar em público, em grupos sem ser genuína ou querendo agradar quem quer que seja. Não me perguntavam o que eu queria, aliás, o que eu sugeria nunca dava resultado como andar de cavalo ou patins no gelo ou dança, que, mesmo não me lembrando, acredito que quisesse muito em pequena ser dançarina. Não vale a pena ficar no "não me escutaram, não me ouviram" porque isso não me vai trazer respostas nem me vai ajudar a trazer as lembranças que eu preciso para me recordar de quem sou. Não estou totalmente a zeros, vou relembrando do que gosto, mesmo que algumas coisas tenham sido influências, vou testando, vou trazendo e percebendo se ainda realmente gosto ou se é apenas sombra do que o outro gostava (por exemplo, irmão ou mãe) e vendo se ponho de lado, como por exemplo os patins em linha, que de vez em quando dá vontade de pegar neles de novo ou arranjar um skate para me divertir com phones nos ouvidos e variar o tipo de exercício que faço. Há uma espécie de dificuldade em relaxar quando apetece sair fora do saudável, enfrentando a voz do passado de que vai fazer mal e intoxicar-me, quando me intoxico mais a deter-me de usufruir do momento de comer algo que queria em criança e nunca tive a oportunidade. Lembro-me de querer ir aos parques aquáticos e a minha mãe nunca me deixar com a justificação habitual do "é perigoso" por histórias do telejornal. O mais engraçado é que o meu irmão ia sempre e eu ficava a chuchar no dedo com o sentimento de injustiça e de não igualdade.
Percebo em mim algo interessante, quando não programo nada, quando não planeio nada, vem uma excitação maravilhosa em cima da hora ao decidir pelo impulso do meu coração porque esses impulsos vêem apenas quando me entrego ao momento como foi quando me aventurei na viagem aos eua e escolhi perder o controlo, de alguma forma, de como seriam os próximos dias, se teria ou não dinheiro, se teria ou não lugar onde ficar e entregar-me apenas ao momento presente. Mas naquele momento, muita coisa ia acontecendo, deixando-me muitas vezes levar pelas emoções, feridas de criança, saindo do caminho ao ir vivendo o que a matrix me ia trazendo em forma de tentações para voltar ao memos ou conseguir resistir aos sorrisos bonitos, às ofertas de dormidas diferentes, mexendo muita coisa com estrutura emocional frágil naquele momento. O interessante é que consegui, por várias vezes, viver o presente sem fazer planos no que ia fazer no dia seguinte, mas, claro que a ansiedade me visitava, com a qual ia lidando o melhor que sabia. Hoje pergunto-me se fui movida pelo coração ou se pelo ego que nos leva a fazer o que nos apetecer sem pensar, guiado pelos desejos e por familiaridade de vivências de vidas passadas (que no meu caso, foram de muita fuga de perto de família, filhos, querer viajar e fazer o que me apetecesse como se fosse sempre criança, sem querer amadurecer nem comprometer-me com a minha missão de vida). Nesta vida, tenho essa tentação e impulso que discernir se a vontade de viajar vem do coração ou do ego que busca fora e foge de compromisso com o ser que eu sou e a missão divina com que vim e me comprometi antes de encarnar neste corpo. Chega de fugir, chega de deixar-me iludir pelas tentações do exterior, chega de me focar no procurar fora distracções que me afastam ainda mais do meu ser e do que realmente vim fazer à Terra, ser feliz e partilhar o ser de amor que eu sou através dos meus dons. A dúvida, muitas vezes, é essa... se eu gosto tanto de viajar, não posso cumprir a minha missão espalhando amor aos lugares por onde ando? Talvez seja mais uma forma de fuga que vai sendo avivada com as vidas que vou vendo de outras pessoas, levando-me a acreditar "se ele/a consegue, eu também consigo!". A pergunta é, estarão os outros a seguir o seu caminho de vida ou, estarão a ser guiados pela ilusão do seu ego? Isso agora pouco importa porque a minha atenção não ser desviada para a vida dos outros e se estão a ser guiados pela alma ou pelo ego... muitas vezes caio nessa para me certificar se são boas influências quando busco algo para escutar. Não estou, novamente a distrair-me e a querer ir buscar fora mais distracção e orientação da minha vida, em função da vida dos outros para poder ter uma bússola, por onde é para ir? Aí é que me volto a perder de mim mesma e no desconforto que é estar, por vezes, comigo mesma, volto a cair nessa tentação de retomar algum curso ou ouvir de novo, fora o que alguém tem para dizer. O que me ajuda, neste momento, a estar comigo mesma, conseguindo ouvir, de vez em quando outras vozes, sem me deixar influenciar por elas? Força de vontade para estar comigo mesma, meditar, resiliência para manter o foco de estar aqui e agora e, se for necessário, ir para onde consiga sentir esse apoio de paz sem acrescentar mais conteúdos que me levam ao mesmo ciclo, a busca fora para evitar o desconforto de vir para dentro. Uns dias são mais desafiantes que outros. O que busco, afinal, fora? Consolo? Apoio? Quem me diga que é normal o desconforto para não entrar num colapso nervoso de não saber como lidar com sensações no corpo? Maioria das vezes que isto acontece é quando fico presa à mente, aos pensamentos e fico nesse reboliço viciante dos pensamentos, a fazerem-me uma espécie de companhia ilusória que só traz desconforto físico, ansiedade por ir alimentando mais e mais os pensamentos e não parar, escolhendo focar.me na respiração. É como se me tivesse constantemente a levar a nutrir os pensamentos para fugir da realidade em que me encontro, sozinha em casa e precisar de lidar de frente com tudo, aceitando tudo como é e como está. Provavelmente, mantenho-me no mesmo lugar por me manter refém da mente que quer manter-se ocupada com pensamentos uns atrás dos outros para não sentir algo, que considera mau. Sou eu que me trago a esta rodinha, como que algo em mim se divertisse a brincar comigo, controlando a minha vida pelos pensamentos. No momento em que escolho praticar a observação da personagem que não sou eu mas apenas uma personagem, que pensa e pensa e pensa, deixa-se ser alimentada de filmes achando-se inteligente por isso, deixando-se ser refém de tudo o que surge achando que é positivo e algo criativo, tudo começa a mudar. Porque é exactamente esse reboliço de pensamentos que me afasta de quem realmente Eu Sou. Importante é conseguir parar que isto acelere e aconteça com tanta frequência, tendo a consciência que tenho a autoridade para parar com isso quando decido parar e respirar, focando-me aqui e agora, levando-me à neutralidade. Ainda que, o ambiente em que vivo me possa influenciar nesta aceleração de pensamentos, cabe-me a mim manter uma prática consistente, pelo meu próprio bem de forma a que o exterior não seja um factor que me influencie tanto ou tenha força suficiente para abalar a minha paz interior. Se o ruído exterior ainda mexe, há trabalho interior a pôr em prática, mais do que encher-me de conhecimento. É um treino constante, quando volta o tornado mental e voltar a domar a fera.
Questiono-me várias vezes o que me afasta dos grupos onde entro e, passado algum tempo, algo ali não ressoou com as minhas células. Estarei a fugir de olhar de frente para uma consciência minha (por vezes, por quem me enamoro, caindo na ilusão da perfeição aparente e charmosa, esquecendo que é humano - talvez eu me esqueça muitas vezes da minha humanidade e imperfeição por isso fugir de olhar para algo desconfortável do outro) que prefiro evitar ver ou sentir ou até reconhecer que está em mim aquele comportamento, ou é uma forma de não me torturar e ir tomando uma dose de cada vez, com calma, à medida que vou vivendo, dia-a-dia, com pessoas que vou vendo na rua ou com quem vou interagindo? Pergunto-me se, atendendo online a outras pessoas é um short cut para essa aprendizagem e mais do que suficiente para me ir observando, de acordo com o que atraio? Não preciso de me forçar a ir para vários grupos, como que a querer forçar feridas e mais feridas, quando tudo pode ir sendo observado com calma, sem ilusórias pressas de ascensão guiadas pela matrix espiritual. É preciso sentir-me bem e focada (sem me perder em emoções despoletadas) quando entro em qualquer aventura social mas não será a meditação mais prioritária, para estar em paz e calma perante qualquer coisa que seja apresentada? Sim, é tempo de voltarmos aos valores humanos originais, para isso é importante deixarmo-nos de paranóias deste mundo simulado, achando que sabemos perfeitamente o que estamos a fazer por um mundo melhor, quando continuamos reféns do ego, das validações exteriores, dos likes.
Estar na Terra é mesmo uma aventura!
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